sábado, 17 de janeiro de 2009

Titãs - A vida até parece uma festa

Tony Belloto

As bandas de rock vivem um dilema eterno: permanecer ou não? A impermanência do rock está em seu código genético: música para jovens, feita por jovens, para vivenciar - pelo menos durante os poucos minutos que duram as boas canções de rock - a impressão de liberdade total e a ilusão de desprendimento do mundo adulto e das convenções sociais. O rock consegue transcender (e transgredir) justamente porque é provisório. É sua impermanência que o impede - ou deveria impedir - de se tornar mais um "tijolo" do sistema. Papo brabo. Mas é isso mesmo.

São poucas as bandas que sobrevivem muito tempo, e quando sobrevivem, são invariavelmente taxadas de mercenárias, burocráticas ou impostoras. Traidoras da grande irreverência do rock, sua pedra fundamental. Digo tudo isso porque acabo de assistir à pré-estréia do filme Titãs - A Vida Até Parece Uma Festa, com direção do meu amigo mais que amigo, irmão camarada, Branco Mello - glorioso cantor, baixista e compositor dos Titãs - e Oscar Rodrigues Alves, diretor talentoso e com alma de músico.

Incrível como vinte e sete anos de minha vida se condensaram na hora e meia que dura o filme. O começo da carreira, a luta por firmar uma identidade, os hilariantes programas de auditório, o reconhecimento, grandes shows, grandes sucessos, pequenos fracassos, perdas, ganhos, loucuras, prisões, paixões, decepções. E muita, muita música. Tudo ali, como nos grandes romances: alegria, tristeza, sangue, suor, cerveja, amor, lágrimas, risos, vida e morte. Não somos mais jovens. E nem fazemos mais música só para jovens. Mas permanecemos uma banda de rock viva e atuante.

Em determinado momento do filme eu falo sobre a ilusão de Peter Pan que acomete todo roqueiro que integra uma banda. A impressão de que a adolescência nunca vai acabar, de que os excessos sempre conduzirão a um oásis pleno de felicidade. E então vem a morte de um membro, a saída de outro, uma e outra frustração da vida adulta, e finalmente nos damos conta de que o Peter Pan também envelhece. Mas continua, irremediavelmente, irresponsavelmente, brincando de caçar a própria sombra.